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01.02.2014 - ARTIGO
 
VENDEDOR ASTUCIOSO
 
VENDEDOR ASTUCIOSO
Antônio Torres / Foto: Facebook / Destaquebahia.com.br
 
Por Antônio Torres.
 
Godofredo era nordestino e fez apenas o terceiro ano primário. Falava pelos
cotovelos. Trabalhava no eito e era uma fera no trabalho: fazia o serviço equivalente a
dois camaradas e, por isso, era muito requisitado e bem remunerado.
Com a crise que se alastrara pelo mundo, a falta de financiamentos e a
desvalorização dos produtos produzidos na roça, cujos preços eram inferiores aos gastos
de produção, as empresas e os proprietários de terras, empreendedores que davam
serviço aos trabalhadores rurais, retraíram-se, contendo-se, precavidamente diante das
incertezas. Ficaram na esperança de uma melhora e os empregos ficaram em baixa.
O indivíduo em pauta deslocou-se para o Estado de São Paulo, entendendo que
lá era a panaceia do emprego. E como sempre acontece em todos os lugares atingidos
pela crise, as empresas foram afetadas pelo desequilíbrio conjuntural entre a produção e
o consumo, acarretando aviltamento dos preços, falências, desemprego e
desorganização comercial. Por esse motivo, entraram na onda da demissão, negociando
com sindicatos e empregados a dispensa dos funcionários e para outras firmas mais
sólidas a redução de horas e diminuição do estipêndio, com intenção de proteger os
trabalhadores.

Diante dos fatos constatados, verificou tratar-se de uma grande ilusão ter ido
para São Paulo e passou a procurar qualquer trabalho que pudesse auxiliar no sustento,
contribuindo nas despesas com os parentes onde estava hospedado, pois achava-se
incomodado com a situação de dependente.

O protagonista, ao passar por uma casa comercial que vendia imagens de santos
e artigos religiosos, viu uma tabuleta solicitando empregado com experiência no ramo.
Apresentou-se ao empresário e por ter uma dialética desembaraçada, pela necessidade,
disse entender do assunto, pois foi sacristão em sua cidade natal. Conforme as
explicações convincentes, foi contratado.
Ocorre que o dito não entendia nada de santos, dizia-se católico, mas não frequentava
a Igreja, nem praticava a religião católica. A necessidade e as adversidades fizeram-no
mentir, ato que normalmente não praticava, mas o fizera, circunstancialmente, para se
empregar.

O patrão foi ao banco tratar de assuntos comerciais e deixou o empregado,
responsável pela loja. Uma senhora, “Corintiana roxa”, solicitou ao neófito vendedor
uma imagem de São Jorge, (santo que tornou-se centro de interesse e adoração da galera
do Esporte Clube Corinthians). Na dúvida, e, por intuição, levou uma imagem de São
Pedro, com chaves na mão, por entender ser o São Jorge solicitado. “O São Jorge que
procuro moço, monta um cavalo, porta uma lança que fere um dragão e essa não
corresponde ao que pedi”.
O rapaz, por falta de intimidade com o assunto, muito perspicaz e,
inteligentemente, para não se enganar mais uma vez, convenceu à senhora que São
Jorge se modernizara, não andava mais a cavalo e, acompanhando a tecnologia, agora
anda de carro, por isso, portava as chaves do veículo. Persuadiu-a a levar a imagem
ofertada. Embora com suspeição que o vendedor fosse torcedor de agremiação
concorrente, a compradora resmungava: “tudo está mudando, até os santos, quem diria,
estão se modernizando”. Com mal humor consigo mesma, achava um absurdo a
mudança repentina.

A fã do Corinthians fez orações, pedindo para que seu time de estimação
ganhasse o campeonato e o “santo”, embora trocado, foi fiel ao seu pedido.
 Por desconhecimento do vendedor, São Pedro fez a vez de São Jorge cumprindo
o seu papel de milagreiro e protetor do Esporte Clube Coríntias.

“Em momentos de crise só a imaginação é mais importante que o
conhecimento” (Albert Einstein)
 
 
     
     
 
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