• VENDEDOR ASTUCIOSO

    VENDEDOR ASTUCIOSO

    Antônio Torres / Foto: Facebook / Destaquebahia.com.br

    Por Antônio Torres.
     
    Godofredo era nordestino e fez apenas o terceiro ano primário. Falava pelos
    cotovelos. Trabalhava no eito e era uma fera no trabalho: fazia o serviço equivalente a
    dois camaradas e, por isso, era muito requisitado e bem remunerado.
    Com a crise que se alastrara pelo mundo, a falta de financiamentos e a
    desvalorização dos produtos produzidos na roça, cujos preços eram inferiores aos gastos
    de produção, as empresas e os proprietários de terras, empreendedores que davam
    serviço aos trabalhadores rurais, retraíram-se, contendo-se, precavidamente diante das
    incertezas. Ficaram na esperança de uma melhora e os empregos ficaram em baixa.
    O indivíduo em pauta deslocou-se para o Estado de São Paulo, entendendo que
    lá era a panaceia do emprego. E como sempre acontece em todos os lugares atingidos
    pela crise, as empresas foram afetadas pelo desequilíbrio conjuntural entre a produção e
    o consumo, acarretando aviltamento dos preços, falências, desemprego e
    desorganização comercial. Por esse motivo, entraram na onda da demissão, negociando
    com sindicatos e empregados a dispensa dos funcionários e para outras firmas mais
    sólidas a redução de horas e diminuição do estipêndio, com intenção de proteger os
    trabalhadores.

    Diante dos fatos constatados, verificou tratar-se de uma grande ilusão ter ido
    para São Paulo e passou a procurar qualquer trabalho que pudesse auxiliar no sustento,
    contribuindo nas despesas com os parentes onde estava hospedado, pois achava-se
    incomodado com a situação de dependente.

    O protagonista, ao passar por uma casa comercial que vendia imagens de santos
    e artigos religiosos, viu uma tabuleta solicitando empregado com experiência no ramo.
    Apresentou-se ao empresário e por ter uma dialética desembaraçada, pela necessidade,
    disse entender do assunto, pois foi sacristão em sua cidade natal. Conforme as
    explicações convincentes, foi contratado.
    Ocorre que o dito não entendia nada de santos, dizia-se católico, mas não frequentava
    a Igreja, nem praticava a religião católica. A necessidade e as adversidades fizeram-no
    mentir, ato que normalmente não praticava, mas o fizera, circunstancialmente, para se
    empregar.

    O patrão foi ao banco tratar de assuntos comerciais e deixou o empregado,
    responsável pela loja. Uma senhora, “Corintiana roxa”, solicitou ao neófito vendedor
    uma imagem de São Jorge, (santo que tornou-se centro de interesse e adoração da galera
    do Esporte Clube Corinthians). Na dúvida, e, por intuição, levou uma imagem de São
    Pedro, com chaves na mão, por entender ser o São Jorge solicitado. “O São Jorge que
    procuro moço, monta um cavalo, porta uma lança que fere um dragão e essa não
    corresponde ao que pedi”.
    O rapaz, por falta de intimidade com o assunto, muito perspicaz e,
    inteligentemente, para não se enganar mais uma vez, convenceu à senhora que São
    Jorge se modernizara, não andava mais a cavalo e, acompanhando a tecnologia, agora
    anda de carro, por isso, portava as chaves do veículo. Persuadiu-a a levar a imagem
    ofertada. Embora com suspeição que o vendedor fosse torcedor de agremiação
    concorrente, a compradora resmungava: “tudo está mudando, até os santos, quem diria,
    estão se modernizando”. Com mal humor consigo mesma, achava um absurdo a
    mudança repentina.

    A fã do Corinthians fez orações, pedindo para que seu time de estimação
    ganhasse o campeonato e o “santo”, embora trocado, foi fiel ao seu pedido.
     Por desconhecimento do vendedor, São Pedro fez a vez de São Jorge cumprindo
    o seu papel de milagreiro e protetor do Esporte Clube Coríntias.

    “Em momentos de crise só a imaginação é mais importante que o
    conhecimento” (Albert Einstein)