De acordo com relatório da Corregedoria da PM, referente ao Inquérito Policial Militar (IPM) que apura o caso, os projéteis extraídos do corpo do engenheiro e que o mataram saíram de uma submetralhadora automática da PM que no dia estava em posse do soldado.
Segundo a assessoria da PM, o inquérito foi concluído e, “após análise do Núcleo de Avaliação de Inquéritos (NAI), será remetido ao Ministério Público até o final desta semana”. Ainda conforme a assessoria da corporação, os demais policiais responderão por infrações administrativas. Todos eles, inclusive Danilo, cumprem atualmente expediente administrativo.
Segundo a investigação feita pela Corregedoria da PM, Moacyr seguia em seu carro, modelo Ford Ka, e começou a ser perseguido por policiais desde Lauro de Freitas. Ele acabou atingido por balas em uma abordagem da Operação Gêmeos, especializada no combate a assaltos a ônibus. Professor da rede federal desde a década de 1980, Moacyr dava aulas no Instituto Federal da Bahia (Ifba), no Barbalho, e era ex-presidente da seção Bahia do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE).
Perfurações
Ainda conforme o relatório da Corregedoria da PM, que o CORREIO teve acesso com exclusividade, o laudo pericial do Departamento de Polícia Técnica (DPT) que consta no relatório aponta três entradas de projéteis no corpo do professor: uma na região lateral direita do abdômen, uma na região lateral direita do quadril e outra na região genital.
No relatório da Corregedoria consta que dos oito PMs que participaram da perseguição, quatro atiraram contra o Ford Ka: o tenente Fabrício Carlos Santiago dos Santos e os soldados Marcelo Araújo Melo, Diego de Almeida Pinheiro, além de Danilo, autor dos dois disparos que mataram o professor. Os tiros considerados fatais saíram do cano da submetralhadora automática de marca Taurus-Famae, modelo MT 40, calibre ponto 40, usada pelo soldado Danilo.
Os peritos concluíram que o veículo foi atingido por, pelo menos, sete projéteis, “expondo a perigo a vida os seus ocupantes, assim como eventuais transeuntes que estivessem nas proximidades”, cita um trecho do documento. O relatório foi finalizado no último dia 18 de agosto pelo capitão Fernando Brandão Cruz, da Corregedoria da PM, e não aponta o autor do terceiro disparo que atingiu a vítima.
A reconstituição do caso foi realizada no dia 27 de agosto, na Avenida Paralela. Em nota, a PM informou que a reconstituição teve início às 6h30 e durou até por volta das 10h. “Este procedimento tem o objetivo de esclarecer quesitos formulados durante a apuração do Inquérito Policial Militar que ainda não tinham sido plenamente esclarecidos com as provas e depoimentos até então coletados”, afirma a assessoria de comunicação.
Interceptações
A investigação feita pela Corregedoria diz ainda que o Ford Ka conduzido por Moacyr desde Lauro de Freitas até o bairro do Trobogy, na capital, não parou em cinco interceptações. Em duas delas, segundo o inquérito, ele direcionou o carro a dois policiais, sendo um deles Danilo, que atirou em direção ao pneu traseiro do Ford Ka, perto da entrada de Trobogy.
Esta não foi a primeira vez que o engenheiro teve o carro atingido por tiros de PMs. Em 16 de março de 2015, durante uma confusão na Avenida Tancredo Neves, ele teve o GM Celta acertado por um policial. Por conta do episódio, o engenheiro moveu uma ação contra a corporação.
Exame toxicológico
Os policiais ouvidos por conta da ocorrência que terminou com a morte do professor, em junho, disseram ter encontrado certa quantidade de maconha dentro do Ford Ka, depois que uma das guarnições envolvidas na perseguição prestou socorro a Moacyr ao Hospital Geral Roberto Santos, onde ele morreu. A informação surpreendeu a família.
Em depoimento na Corregedoria da PM, a ex-companheira da vítima, que terá o nome mantido em sigilo, garantiu que Moacyr, durante 35 anos de convivência, nunca fumou sequer um cigarro ou fez uso de qualquer droga, o que a fez estranhar o fato de ter sido, supostamente, encontrado com posse de maconha.
Diante da acusação, a família encomendou um exame toxicológico no corpo do engenheiro, que apontou “negativo” para cocaína, maconha, anfetamina e outras drogas. O corpo dele só foi enterrado dia 13 de julho para permitir a realização do exame.
Engenheiro processava a PM e pedia R$ 350 mil de indenização
Morto durante uma perseguição policial em junho deste ano, o engenheiro Moacyr Trés da Costa Trindade, 61, era autor de um processo contra a PM, no qual pedia indenização de R$ 350 mil por agressão sofrida em março do ano passado, também durante uma abordagem feita por PMs. O processo tramita na 7ª Vara da Fazenda Pública. A ação é atribuída a policiais do Esquadrão Águia. O fato também foi revelado com exclusividade pelo CORREIO.
De acordo com o documento, no dia 16 de março de 2015, ele seguia do Ifba, no Barbalho, para casa, na Pituba, em um Celta branco, e ao passar pela Avenida Tancredo Neves, às 19h, foi abordado por um motociclista que tentava ultrapassá-lo a todo custo. Ao conseguir passar o veículo, o motociclista, que era um PM à paisana, teria apontado um revólver para Moacyr, que parou o carro. Nesse momento, outro PM à paisana, em uma segunda moto, chegou e furou o pneu traseiro do Celta branco com uma faca, conforme relato do professor. Os policiais eram lotados no Esquadrão Águia.
Segundo o processo, Moacyr ainda tentou pedir ajuda de uma viatura do Comando de Operações Especiais da PM, mas afirmou que um dos policiais acabou metralhando o pneu do veículo. Disse ainda ter sido retirado à força do carro, jogado no chão, algemado e detido. Até julho, a PM ainda não havia sido intimada sobre esse processo.

